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Mochila Vermelha

Sab | 21.10.17

Já vou tarde para opinar?

Olá Mochileiros e Mochileiras.

 

Não, ainda não desisti do blog. Só não tenho tido mesmo tempo, trago até as pestanas queimadas, de tanto que tenho bulido no trabalho nos últimos dias. Mas quem corre por gosto, não cansa. Não é assim que se diz?

 

De qualquer das formas, não poderia deixar de me pronunciar sobre o fatídico dia 15 de outubro de 2017. Tenho lido muitos artigos sobre o tema na imprensa, muitas opiniões de peritos em gestão florestal, dos cidadãos. É normal, em termos de opinião, cada um tem a sua. Eu não podia deixar de registar a minha opinião e aquilo que sinto sobre este assunto. Não quero aqui afirmar que algo está certo ou errado, é apenas a minha singela opinião. 

 

Considero que este verão foi literalmente negro para Portugal. Lembro-me de acordar no dia 18 de junho e de ler o sms (recebo os alertas das notícias) que dizia que tinham morrido mais de 40 pessoas na estrada nacional 236-1 devido a incêndio. O primeiro pensamento que me ocorreu é que aquilo seria uma brincadeira de mau gosto. Infelizmente era mesmo verdade. Nestas últimas décadas temo-nos habituado ao flagelo dos incêndios, normalmente sempre com vítimas mortais, no entanto, nunca tinha acontecido algo com esta escala. Todos os anos temos promessas do governo que vão ser tomadas medidas, mas na verdade, cada ano que vem é pior. Mas o pior, foi saber que no dia 15 de outubro o fogo andou na minha aldeia.

 

Afinal de quem é a culpa? Do governo? Da Ministra da Administração Interna? Da proteção civil? Do cartel do fogo? Dos proprietários? Dos eucaliptos? Dos pinheiros? Das alterações climáticas?  

 

Na minha opinião, de todos. Todos temos culpa. Uns terão mais culpa que outros.

 

 "Não vou fazer jogos de palavras. Se quer ouvir-me pedir desculpas, eu peço desculpas", disse António Costa a Hugo Soares. Sim, queremos um pedido de desculpas. É o mínimo, é uma forma de admitir que erraram. Pois, o governo também errou. Não terá sido o único a errar certamente.

 

Há pessoas que defendem que a ministra não devia ter saído, que não é a solução. Não tenho nada contra ela, até acredito que seja uma pessoa muito válida e tem um currículo impressionante na área do direito. No entanto, desde Pedrógão Grande que a sua imagem transparece uma fadiga e desgaste maiores que ela própria. Portanto, pergunto-me se ela teria capacidade e credibilidade para levar a cabo as reformas necessárias? Julgo que nem ela própria queria ter este peso nos ombros. E na verdade, ao assumir estes cargos é necessário assumir a responsabilidade. Se a culpa do que aconteceu foi da ministra? Não e sim. Foi dela e de todos os outros antes dela. Mas também não vi medidas no sector da Adminitração Interna que contrariem a trajetória dos acontecimentos dos últimos anos.

 

"With great power comes great responsabilty". Conheço esta frase do Spider Man, no entanto, é difícil precisar quem foi o primeiro a usá-la (talvez a primeira vez tenha sido durante a Revolução Francesa, tendo sido referida em decretos da Convenção Nacional Francesa a 8 de Maio de 1793 e por outras figuras durante a história, incluindo no Homem Aranha em 1962), no entanto, acho que é extremamente avassaladora e deve ser aplicada às ações de todos.

 

Mas, e existe solução para este flagelo português? Em termos numéricos, uma vez que estes ajudam sempre a ter uma melhor percepção da realidade, Portugal é o líder europeu em termos de número de incêndios, há anos em que mais de metade da área ardida na Europa ocorre em Portugal, mas, Portugal ocupa apenas 92 mil km2 do total de 4,4 milhões da UE. Em 2003 arderam em Portugal 425.839 ha, em 2005 339.089 ha (dados PORDATA), em 2017, este valor deverá ultrapassar os 500.000 ha, fazendo com que seja o pior ano de sempre, apesar de ainda não haver dados oficicais. Assustador, não?

 

pordata.jpg

Mas existem casos de sucesso. Não precisamos ir muito longe, olhemos para os nossos vizinhos e para o caso concreto da Galiza. Em 1989 a Galiza sofreu um ano devastador em termos de incêndios pelo que decidiram implementar medidas para prevenir ocorrências similares ou piores. No ano seguinte criaram uma subdireção geral exclusivamente dedicada à prevenção dos incêndios, mudaram também o plano de combate aos incêndios investindo na profissionalização e formação dos bombeiros (em Portugal, cerca de 90% da força de combate aos incêndios é voluntária). Na Galiza, a vigilância, prevenção e extinção de incêndios estão concentrados, em Portugal não. Obviamente existem outros factores característicos de Portugal como a propriedade da floresta, os minifúndios, o abandono das atividades agrícolas e da pastorícia que contribuíam para manter a floresta limpa, a falta de aposta em árvores autóctones, etc... Por todos estes factores, não existe apenas um culpado. É um problema estrutural que exige reformas de fundo (desde o cadastro florestal, sensibilização das populações, mais meios para a vigilância, prevenção e combate,...) e sobretudo investimento, ora, este poderá ser o grande problema de Portugal. Por exemplo, Espanha destina 2000 milhões de euros apenas para a extinção dos incêndios por ano, (em Portugal apenas 100 milhões). Fonte 

 

Temos realmente um longo caminho a percorrer. Este caminho começa em cada um de nós. Espero que realmente 2017 seja o ano de viragem.

 

#MochilaVermelhaBlog

#incendios

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